Sunday, October 24, 2010

Resenha da aula dia 20 de Outubro de 2010

André Lemos retoma a discussão da aula passada, suscitada pelo texto de Martino “Afinal de qual comunicação estamos falando?” e ratifica as distinções entre troca de informações entre agentes não-humanos (grau zero da comunicação) e a comunicação propriamente dita que significa uma troca de consciências.


ENTREVISTA COM O NEUROCIENTISTA ANTÓNIO DAMÁSIO

André Lemos lê alguns trechos de uma entrevista com o neurocientista português António Damásio. Para o entrevistado, a cibernética é a ciência das ciências, pois dá conta das trocas informacionais entre homens e homens, homens e máquinas e entre máquinas e máquinas, como já foi dito, a troca informacional pode ser compreendida como comunicação em um grau zero.

Apesar de as tecnologias terem favorecido o aumento na troca de informações, este fato não significa que a comunicação, no sentido em que estamos falando, tenha aumentado também.

Por ser neurocientista, Damásio retoma a relação (vista também no capítulo 1 do livro Cibercultura de André Lemos) entre córtex cerebral e habilidade técnica, ou seja, a imbricação do homem com a técnica, a qual não deve ser tomada ligeiramente como algo artificial e externo à humanidade.

Segundo Damásio, alguns historiadores estiveram presos à idéia do córtex, mas para ele o mais interessante é pensar no tronco cerebral, parte mais antiga do cérebro e que cria uma ponte entre os organismos que o tem e os que não o tem.

Para Damásio, mais importante que falar de cérebro é, então, falar de consciência, já que ela confere à espécie humana a possibilidade de buscar seu bem-estar. É, dessa forma, que Damásio irá traçar um histórico da evolução da consciência descrevendo e nomeando as várias etapas deste processo:


1) Consciência Nuclear

2) Consciência Autobiográfica

3) Consciência Expandida

4) Consciência de Si


A aparição da linguagem permitiu à comunicação tornar-se mais sofisticada, uma que deixa de seguir princípios unicamente biológicos. Damásio chega a dizer: “A cultura nos liberta da escravidão biológica”.

Depois de falar sobre consciências, Damásio irá tematizar as emoções, as quais, segundo ele, exercem forte poder sobre o nosso processo cognitivo; sem as emoções não haveria desenvolvimento das ciências. Quando perguntado pelo jornalista sobre se uma máquina poderá ser pensante um dia, Damásio responde que uma máquina só poderia ser pensante se nela fossem instauradas emoções como a raiva, a inveja e a felicidade. “Um robô não tem matéria orgânica e isto muda tudo”, disse.

Concluímos então que nada que particulariza a comunicação é encontrada na simples troca informacional.


SOBRE FORMAS E FÓRMULAS – FLUSSER

Flusser tenta responder neste ensaio a seguinte pergunta: Aquilo que nossa consciência não consegue apreender não é real?

Para ele, temos inventado métodos e aparatos que funcionam de modo similar ao sistema nervoso central (SNC), só que de maneira diferente. Além disso, também podemos agora viver em outros mundos. No caso, estamos vivendo no mundo da Comunicação, uma vez que nossa maneira de pensar é altamente influenciada por este meio comunicacional e artificial no qual estamos imersos, afinal não há um sujeito puro, que viva isolado e esteja desprendido de amarras. Estamos amarrados às coisas e também às não-coisas; todos os lugares que ocupamos no mundo estão em processo, entrecortados por fluxos comunicacionais.

Por isso, o que temos hoje é uma complexificação dos lugares e sujeitos, e não um esfacelamento destes. Hoje, nos cabe avaliar como um processo comunicacional interfere na nossa experiência. Heidegger e a idéia de ser-aí (dasein) já apontavam para a capacidade do homem poder ocupar um espaço projetando-o de maneiras distintas.

Vivemos numa tradição que insiste em separar a emoção da razão, no entanto, como apontou Damásio na entrevista lida no início da aula, a emoção é constituinte da maneira como pensamos. O real é uma construção e nosso papel é construído através do discurso. Wittgenstein, por exemplo, dizia que o real é construído pela linguagem.


MATERIALIDADE DOS DISPOSITIVOS

André Lemos pergunta à turma o que é ler um jornal impresso e o que é ler um jornal online. A pergunta visa à discussão entre os alunos sobre as diferentes experiências de leitura. Após algumas pessoas falarem o que pensam acerca de cada uma das leituras e do modo como elas operam isso no cotidiano, André Lemos fala que crê nunca ter lido um jornal online.

Ele começa então a falar de suas experiências com o Kindle, no qual ele pode ter a assinatura de diversos jornais e consegue consumir um produto finalizado (diferente do que ocorre com o online). Os jornais no Kindle são digitais e totalmente offline, não há links (o que inibe a dispersão, característica que muitos consideram prejudicial na leitura online). “Hoje tenho de dedicar um tempo para ler o jornal, assim como fazia antigamente”, comentou o professor.

A sala, de modo geral, é contra os jornais em Page Flip (aqueles que emulam um jornal impresso na internet). André Lemos explica que essa modalidade de leitura vai contra a tônica do dispositivo, do suporte.

Falamos, portanto, de três modalidades de leitura diferenciadas: impresso, internet e Kindle.

Na web, temos uma experiência mais telegráfica; pequenas notícias, pequenos parágrafos. No Kindle, há uma retomada do aprofundamento das matérias, característica do impresso.

Todas essas experiências modificam também a experiência corporal. Para explicitar essa mudança, André Lemos exibiu um vídeo no YouTube que, de forma caricata, mostra a transição da experiência de leitura do papiro para o livro.

A escrita hoje tem sido transformada não com os livros, mas com as telas e a quantidade de tempo que as pessoas têm dedicado à leitura só tem aumentado. Para Kevin Kelly, estamos lendo tela, e ler telas demanda outras habilidades de leitura de outros símbolos, que não só letras. André Lemos pondera essa posição de Kelly.

Hoje temos, sem dúvida, uma leitura mais utilitária que contemplativa. Temos focos atencionais, posturas e dispositivos diferentes e o que interessa é que sejamos cortados por esses diversos curtos-circuitos.

Para concluir o raciocínio e a aula, André Lemos leu trechos do livro francês “Por que ler?”. O livro fala da leitura de literatura a qual tem sua força na fraqueza, nesse exercício de contemplação, que foge do utilitarismo ligeiro.

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Sunday, December 6, 2009

Reflexões - Parte II

Aproveitando um pouco as férias por antecipação (já que ainda não tivemos notas tanto nesta quanto nas demais disciplinas), andei olhando anotações antigas e os livros que gosto e, em certo sentido, sinto-me flanando em minhas próprias memórias, tanto de quando li tais livros ou trechos, quanto do que eles me fizeram pensar. Afirmo que passear pelas memórias através de coisas materiais é flanar porque essa experiência não é uma mera repetição daquela de outrora. Vejo sempre algo mais, uma coisa nova revestida por um ângulo que, na época do ocorrido, não era capaz de ver. E este princípio filosófico de tão simplório (que vem de Heráclito, fundador da dialética) a mim mais parece revelador.

Ao deparar-me com a frase "A explicação é um erro bem-vestido", do escritor argentino Julio Cortázar, lembrei-me de quando li o livro que a contém - "O Jogo da Amarelinha", clássico (moderno) desse autor. Àquela época, esperava ainda o início das aulas do primeiro semestre da FACOM e tudo o que sabia de comunicação era relativo (mas eu não fazia idéia disso) à teoria matemática da comunicação. Emissor, receptor, canal, ruído - são esses os conceitos e a idéia de comunicação que temos (quando temos) no ensino médio brasileiro. Logo no primeiro semestre, uma revelação: o erro faz parte. A explicação, ora! é um erro bem vestido. Não há ruído entre seres humanos, porque a idéia de ruído supõe que a comunicação prevaleça ou deva prevalecer - o que não acontece. Você tenta se fazer entender, mas aquilo parte de uma sucessão de incompreensões e diferenças, como lembrei, no meu último post, através de um texto de Philip Roth. Mas a isso ainda persistem uma série de dúvidas, como acredito que esteja perceptível ainda nesse texto.

E por que escrevo tudo isto, se ainda não encontrei caminhos naquelas mesmas dúvidas? Encontrei hoje outro trecho de Julio Cortázar, do mesmo livro. Não consigo me lembrar por que separei esse trecho, em especial, mas encontrá-lo complementa aquelas idéias anteriores:

"Você fala de nos entendermos, mas no fundo se dá conta de que eu também gostaria de me entender com você, e você quer dizer muito mais do que a sua própria pessoa. Conformamo-nos com muito pouco. Quando os amigos se entendem bem entre si, quando os amantes se entendem bem entre si, quando as famílias se entendem bem entre si, então acreditamos estar em harmonia. Engano puro, espelho para cotovias. Às vezes sinto que entre dois seres que quebram a cara um do outro com bofetões há muito mais entendimento do que entre os que estão olhando de fora."

O texto remete a algumas coisas interessantes, como a certeza mútua que deveríamos ter de que buscamos nos entender. Não estou certo de que estejamos conscientes dessa busca coletiva, mas talvez "no fundo" nos demos conta disto. E por que não temos essa convicção completa? Por que não conseguimos nos entender? "Contentamo-nos com muito pouco". Contentamo-nos com um entendimento superficial das coisas, na maioria das vezes. Contentamo-nos, muitas vezes, com uma explicação hermética dada por professores. Contentamo-nos com a passividade de uma aula explicativa (e a explicação, mais um vez, seria um erro bem-vestido, desses muito elegantes), sem, no fundo, buscar entender ao fundo o que é aquilo. É a isso que, no meio acadêmico, entendo por harmonia e vejo, particularmente, de forma negativa. E, no entanto, confesso: não é à toa que coloco esse texto no plural ("contentamo-nos")...

Pesa o fato de que, para a comunicação em seu estágio mais amplo, a harmonia não ajuda em nada. É o choque, o conflito: isso que buscamos. É por isso que entre dois que discutem há mais entendimento que entre os passivos. É por isso que as coisas deveriam ser ditas, tanto em família, quanto entre amantes ou... na sala de aula.

Porém, mais uma vez, prevalece, para mim, o "ir vivendo do jeito que der", de Philip Roth. Não somos perfeitos. Não conseguimos fazer o que queremos, muito menos aquilo que esperam de nós. E todo esse discurso que aqui me parece quase uma auto-ajuda, um discurso fajuto como Paulo Coelho e companhia, só serve para dizer o seguinte: mal ou bem, vamos vivendo nessa faculdade, tentando entender as matérias e cumprir o esperado. Bem ou mal, chegamos até aqui e a maioria provavelmente passará sem sobressaltos esse estágio...

Mas tudo isso não passa, afinal, de um erro bem-vestido. Sufocado em palavras de uma pessoa feita de palavras (como todas as outras). Enfim, isso tudo é só um adeus. À disciplina, mas não àquelas dúvidas, não à reflexão.


Grupo 8

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Monday, November 30, 2009

Reflexões



Recentemente, revi esta cena do filme Antes do Amanhecer. O filme é alvo de paixão por muitos, mas o gosto não vem ao caso nesse blog. À parte de todo o romantismo e das discussões sobre o amor, o filme é repleto de diálogos sobre a vida, de modo geral, entre dois jovens comuns (embora de nível cultural, no sentido academicista do termo, nitidamente apurado) antes completamente desconhecidos.

Há, especialmente, uma parte em que a personagem Celine diz: "Acredito que se há algum Deus, ele não estaria em nenhum de nós. Não em você ou em mim... mas nesse espaço entre nós... Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compatilhar algo com alguém. Sei que é praticamente impossível conseguir... Mas e daí? A resposta deve estar na tentativa." Eis o motivo de citar o filme aqui: a lembrança que tive de nossas discussões sobre o ato de comunicar, durante as aulas.

Como André Lemos ressaltou algumas vezes, existe algo de mágico na comunicação. Se fosse empregado o conceito de comunicação como troca entre consciências (para mim, o sentido mais amplo do termo, que exclui o que campos como a Semiótica consideram como Comunicação), o qual Lemos parece corroborar, esse tão falado ato, de fato, pode ser considerado impossível, ou improvável, como pondera Niklas Luhmann.

Para o escritor Milan Kundera, estar ligado a alguém é como entrelaçar sonatas compostas por cada vida. Disso podemos fazer diversos desdobramentos: até que ponto as sonatas podem se misturar sem que se torne um conjunto de sons dissonantes e, portanto, sem correlação entre si? Até que ponto a dissonância não faria parte essencial do que somos e o ato de comunicar não estaria intrínseco a ela?

No raciocínio de Kundera, aplicado aos relacionamentos amorosos - mas ampliado por mim, por mais leviano que seja, aos relacionamentos de modo geral, existe um ponto de nossas vidas em que não há mais como entrelaçar essas sonatas. Em que, cada léxico do ser, profundamente ligado a suas experiências, não teria paralelo ao léxico sentimental ou existencial de outro, e ambos falariam linguagens completamente distintas, sem nunca alcançar o que o outro realmente quer dizer. Isso remete, para mim, novamente à improbabilidade da Comunicação e ainda a outro texto, que, diferentemente da opinião de Kundera, amplia o deslize de sentidos ao máximo:

“Já estamos entendendo errado as pessoas antes mesmo de encontrá-las, enquanto ainda estamos prevendo o que vai acontecer; entendemos errado enquanto estamos diante delas; e depois vamos para casa e contamos a alguém sobre o encontro, e de novo entendemos tudo errado. Uma vez que a mesma coisa acontece com os outros em relação a nós, tudo vira uma ilusão desnorteante, destituída de qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensões. E, com tudo isso, o que é que vamos fazer a respeito dessa questão profundamente significativa que são as outras pessoas, que se veem drenadas de toda a significação que julgamos ser a delas e adquirem, em vez disso, um significado burlesco, o que vamos fazer se estamos tão mal equipados para distinguir os movimentos interiores e os propósitos invisíveis uns dos outros? Será que todo o mundo devia trancar a porta de casa e ficar quieto, isolado, como fazem os escritores solitários, em uma cela a prova de som, invocando as pessoas por meio de palavras e depois sugerindo que essas pessoas feitas de palavras estão mais próximas das coisas reais do que as pessoas reais que deturpamos todos os dias com a nossa ignorância? Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco. Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso… bem, boa sorte.” Philip Roth (excerto de Pastoral Americana, 1997)


De modo que, do meu deslumbramento com esse trecho, com o entender errado, retiro ainda a impressão de que a literatura consegue dizer tudo isso muito melhor do que todos os teóricos. O erro e o desenlace fariam mesmo parte das nossas existências? E qual a solução para as nossas angústias, a nossa busca de entendimento - que, afinal, seria sinônimo, também, de comunicação?

O que é, afinal, esse monstro de que tanto falamos e o qual nunca pensamos atingir? Persiste em mim a dúvida, no fim do quarto semestre (opa, isso já é metade do curso! Que espécie de fraude sou eu, que chego até esse ponto com tantas questões?). Persiste o pensamento, também, de que talvez Roth esteja certo. O jeito é entender que tudo isso é algo mágico e mesmo inalcançável. De que as sonatas, como diz Milan Kundera, podem até se entrelaçar, mas nunca serão unas. E o espaço que existe entre um ser e o outro, entre a minha consciência e a de todo o resto das pessoas do mundo é infinito. E que, nesse mar sem fim de incompreensões em que estamos submersos, uma ameaça de uma bóia atirada de um navio qualquer em que outra consciência estaria já é um alento.

Seria desse tipo a aproximação feita entre o casal do filme?

Vale, como diz Celine, a tentativa. Ou "ir vivendo do jeito que der", nas palavras de Roth, mas com a destreza de uma canção de amor (para não dizer sonata), talvez? Ainda não sei.

Só pratico aqui uma das poucas coisas que aprendi da Semiótica: existimos por meio de palavras. Somos, afinal, "pessoas feitas de palavras", cujos significados são múltiplos e capazes de atordoar qualquer mensuração.

Grupo 8.

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Sunday, November 15, 2009

Série de vídeos Did You Know?

Recebi um email esses dias falando sobre uma série de vídeos chamada “Did You Know?”, que traz dados bastante interessantes sobre mídia, tecnologia, comunicação, convergência e internet.

O primeiro vídeo da série fez uma abordagem geral sobre as mudanças sociais e tecnológicas sofridas pelo planeta nos últimos anos. Agora em 2009, o vídeo chegou à sua versão 4.0, e foi feito em parceria com a revista The Economist, especialmente para divulgar a terceira edição do evento Digital Media Convergence Forum, que aconteceu em outubro, em Nova York, para discutir sobre as novas mídias, e como tem acontecido a convergência digital no mundo.

Os dados apresentados nos vídeos são bastante interessantes, e nos permitem vislumbrar as novas tendências e estratégias que já estão presentes e as que ainda estão por vir. É possível perceber, conforme falamos em sala de aula, como os dados mudam e a tecnologia evolui em tão curto prazo, e como a convergência de mídias influencia todos os âmbitos da nossa vida.

Entre outras coisas, o vídeo mostra a ascensão dos meios de comunicação social e a queda das fontes tradicionais. Traz informações como a de que a circulação de jornais caiu em 7 milhões nos últimos 25 anos, enquanto que nos últimos 5 anos o número de leitores de jornais online aumentou em 30 milhões. Além disso, o vídeo aponta a queda no uso dos meios tradicionais, como jornais, televisão e rádio, para a publicidade, e o aumento no uso dos meios digitais para esse mesmo fim.

Abaixo segue a versão 4.0, a deste ano do vídeo “Did You Know”. Infelizmente não encontrei uma versão dublada ou legendada em português. Mas em seguida podemos ver o vídeo do ano passado (3.0), legendado em português.


Grupo 7

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Thursday, October 22, 2009

Reflexões sobre Surplus

Surplus é um filme que não segue apenas um caminho de se viver. Mostra os dois viés, dos capitalistas consumistas querendo lhe empurrar toneladas de produtos a cada hora, assim como os socialistas com sua defesa do não-consumismo e sua pseudo democracia.
Apesar de serem sistemas opostos, os dois fazem uso de um discurso e de meios
de comunicação para divulgar suas idéias. O diretor faz uso do próprio recuso de áudio e vídeo para demonstrar o forte poder da mídia e de seus discursos ideológicos. O jogo de cena e imagens prendem a atenção do telespectador, não deixando fugir o olhar.
No geral, o discurso do bloco capitalista é igual ao do socialista e vice-versa. Os dois tentam arrebatar seu público, sempre fazendo a relação entre dominador-dominado, mantendo uma ordem estabelecida, seja consciente ou inconscientemente. Com esta contraposição mostrada não dá para simplesmente eleger um sistema melhor. O nosso mundo é muito mais complexo, não dá para escolher qual o sistema está correto, se o dos EUA ou de Cuba. A globalização borrou os limites, ao mesmo tempo em que estamos todos envoltos numa mesma teia, estamos também em um domínio desigual. Somos levados para um mundo onde cada vez mais precisamos de mecanismos globais, mas que mesmo tempo não consegue tornar o mundo mais igualitário.

E no documentário também tem idéias, digamos que, utópicas, como a de Zerzan.. Para ele, alcançar a felicidade é sair deste mundo equipado em que vivemos hoje e voltar para o estágio primordial, sem aparatos tecnológicos nem cobranças de comportamentos. Para Zerman, as pessoas estão presas a este sistema, são reféns da tecnologia e de toda a lógica que ele impõe aos homens. A visão dele é bem extremista e utópica. Não vemos como poderíamos voltar para um estágio sem tais aparatos. Parece mais sensato tentar rever os usos de tais e se apropriar destas tecnologias de forma sustentável e que traga novas significações.
Grupo 4

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Wednesday, May 6, 2009

Resenha da aula do dia 30/04

A aula do dia 30 de abril foi iniciada com a apresentação do grupo 10 que explanou sobre o texto “Tecnicidades, Identidades, Alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século” de Jesús Martín-Barbero. Logo na introdução, o autor apresenta as reais conseqüências mundiais para os processos, meios e práticas da comunicação a partir de dois fatos: o atentado de 11 de setembro e a realização do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. O primeiro causou efeitos diretos aos povos latino-americanos, pois a recessão econômica e a ingovernabilidade política, advindos da lógica da globalização neoliberal, legitima a desconfiança como método e a violação dos direitos à liberdade e privacidade como comportamento “oficial” das autoridades, acarretando no acirramento dos preconceitos étnicos e fanatismos religiosos. O autor, para ilustrar seu pensamento, cita o exemplo da hiperinflação econômica na Argentina nos anos 80, que teve como conseqüências diretas a destruição sistemática de suas instituições políticas e nos anos 90, sob influência do neoliberalismo, a mais cruel depressão econômica e implosão social. O segundo fato analisado, o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, segundo o autor, não foi nada mais do que uma “utopia política de um mundo dos cidadãos e dos povos”. Com o apoio dos grandes organismos econômicos mundiais – FMI, OMC, BM – a comunicação e a educação foram submetidas à lógica globalizadora do mercado. Para a comunicação, Barbero expõe que a proposta em Porto Alegre coloca esse campo como um lugar de dupla perversão e dupla oportunidade. As perversões seriam a fusão dos dois componentes estratégicos da comunicação, os veículos e os conteúdos, que implicam no controle da opinião pública e na imposição de moldes estéticos; e as ameaças às liberdades de informação e expressão, atingindo até mesmo os elementares direitos civis. As oportunidades aparecem quando a digitalização possibilita uma linguagem comum de dados, textos, sons, imagens e vídeos; e a configuração de um novo espaço público e de cidadania. Barbero enfatiza que essa configuração abrange uma pluralidade de atores e de leituras críticas, convergindo para um compromisso emancipador e uma cultura política, na qual a resistência se torna formadora de alternativas. Apoiado no pensamento de Habermas, Barbero propõe duas idéias: pensar a comunicação como motor eficaz do deslanche e inserção das culturas; e pensar o novo mapa desenhado pelas mutações tecnológicas, explosões e implosões das identidades e as reconfigurações políticas das heterogeneidades.

I. A mediação tecnológica do conhecimento na produção social

O lugar da cultura tem se transformado radicalmente por conta de dois processos: a revitalização das identidades e a revolução das tecnicidades. O primeiro possibilitando o reavivamento das questões das identidades culturais (motivo dos mais complexos conflitos internacionais dos últimos tempos) e questões de gênero e idade; e o segundo, introduzindo em nossas sociedades um novo modo de relação entre os processos simbólicos e as formas de produção e distribuição de bens e serviços. A mediação tecnológica da comunicação deslocaliza os saberes, o que vem conduzindo a uma fragilização das fronteiras entre razão e imaginação, saber e informação, arte e ciência.

1. Peculiaridades Latino-Americanas da sociedade do conhecimento

Barbero defende a idéia de que nossas sociedades são consideradas como sociedades do desconhecimento, do não reconhecimento da pluralidade de saberes e concorrências culturais. Ele acrescenta que existe uma subordinação dos saberes visuais e orais à ordem habitual, acarretando em novos modos de produção e circulação de saberes e de novas escritas, especialmente advindas do computador e da internet. Barbero faz uma crítica às nossas universidades que continuam sem se inteirar das estratégicas relações entre aqueles saberes e esta tecnologia, assim como desconhecem a complexidade das relações trançadas atualmente entre as mudanças do saber na sociedade do conhecimento e do trabalho na sociedade de mercado. Isso provoca a limitação do papel das universidades em analisar tendências e se adaptar a elas.

2. Aparição de um meio educacional difuso e descentrado

Barbero apresenta nessa parte como vivemos num ambiente de informação que mistura vários saberes, mas que se encontra fortemente descentrado em relação ao sistema educativo organizado em torno da escola e do livro. E que a diversificação e difusão do saber, fora da escola, são dois dos desafios mais fortes que o mundo da comunicação propõe ao sistema educativo. Porém, ao invés da escola abrir espaço para esses novos saberes, essa adota uma posição defensiva e constrói uma idéia negativa e moralista de tudo que a questiona em profundidade. De qualquer forma, por um lado, os novos saberes contribuem para uma mudança na relação com a máquina, em específico, o computador. Esta nova relação possibilita o processamento de informações, ao invés de objetos. Por outro lado, as redes informáticas mobilizam figuras de um saber que escapa à razão dualista na qual estamos habituados a pensar a técnica, pois configuram ao mesmo tempo integração e exclusão, desterritorialização e relocalização. A mudança explícita nas relações entre cultura, tecnologia e comunicação propõe a reintegração cultural do mundo dos sons e imagens relegado ao âmbito das emoções e expressões. Barbero, neste momento, salienta o hipertexto como aquilo que hibridiza a densidade simbólica com a abstração numérica, fazendo com que as duas partes do cérebro tidas até então como opostas se reencontrem.

3. Mudanças nos mapas trabalhistas e profissionais

Barbero defende que há uma transformação profissional do mapa “moderno” das profissões e da emergência de um outro mapa mais próximo da configuração dos novos ofícios exigidos pelas novas formas do produzir, do comunicar e do gerir relacionados tanto às novas destrezas mentais quanto aos novos modelos empresariais. Por causa destes, um novo estatuto social do trabalhador se apresenta implicando a passagem de um trabalho caracterizado pela execução mecânica repetitiva a um trabalho que exige a capacidade mental. Isso provoca novos modos de fazer, em especial um saber-fazer. Toda essa mudança está atrelada à rentabilidade da empresa, que a todo o momento avalia os resultados e isso traz conseqüências que afetam profundamente a estabilidade psíquica do trabalhador. Um exemplo que Barbero utiliza refere-se à substituição de funcionários antigos por novos, especializados e inteirados com as novas tecnologias. Por isso, Barbero defende que o novo profissional deve estar disposto à permanente reconversão de si mesmo. O sentido do trabalho profissional passa a se vincular a uma criatividade e a uma flexibilidade atadas à lógica mercantil da competitividade que enlaça confusamente saber com rentabilidade.

Durante a apresentação, André Lemos contribuiu com comentários pertinentes acerca de alguns aspectos da contemporaneidade e do tema tratado no texto em questão. A princípio, apresentou o autor Jesús Martin-Barbero como um dos pioneiros dos estudos sociais latino-americanos pós-globalização. Sobre o estudo do autor, expõe que este, em sua primeira parte, aborda a cultura da insegurança, na qual o atentado à privacidade é predominante. A sociedade contemporânea a todo o momento é controlada e vigiada, seja por câmeras de segurança seja pela própria internet. Um exemplo citado pelo professor refere-se ao caso de uma muçulmana que foi expulsa dos Estados Unidos por acessar sites de mulheres-bombas. Percebe-se nesse episódio que a liberdade do usuário foi violada e sua privacidade controlada. André Lemos também fortalece a idéia defendida pelo autor sobre a postura das escolas em geral que se mantém na defensiva em relação aos aparatos tecnológicos. Lemos também alertou que a produção do conhecimento não consiste apenas em você adquirir informações, mas que necessita de uma articulação complexa dessas informações.

A aula foi finalizada e a continuidade da apresentação do grupo 10 foi acordada para o próximo encontro da disciplina.

Grupo 10

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